domingo, 4 de novembro de 2012

Confissões de um ex-recensor crítico #1


O meu problema é tornar-me antipático por gostar exclusivamente de arte firme e grande. Mas são só estes dois graus que me suscitam prazer estético. São dois graus diferentes, e o primeiro é inerente ao segundo. Sucede, no entanto, que, às vezes, retiro esse prazer de um poema de um autor de menor exigência. Já Eliot dizia que não havia poeta medíocre que não fizesse um poema muito bom na vida. Como não escrevo para criar arte, tenho a liberdade limpa de, sendo só leitor,  considerar vulgar, ou menos, a obra de determinado poeta. Abro um livro, enfastio-me, largo-o, retomo-o, e um dia leio o tal poema único na vida desse poeta. Isto já me sucedeu duas ou três vezes. A conversa vem a propósito de que, talvez durante dois anos, me dediquei a escrever recensões críticas, sobretudo de poesia e romance, que foram publicadas na imprensa sob outro nome. Mas ao escrevê-las não podia mostrar o que pensava, porque então, como hoje, ninguém enterra ninguém. A táctica era receber os livros das editoras e, para não me violentar, escrever textos sem dizer bem nem mal, ainda que procurasse encorajar os mais jovens em que pensava descobrir qualidade. Até que me cansei, desisti de escrever crítica e colmatei, com tradução, a falta do rendimento que as recensões me davam.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Da velha diáspora


antónio cabrita não estica o pescoço para que o vejam e reclama. reclamar não chega nem nunca chegará. muito menos a um escritor português emigrado em moçambique. porque, na história literária, ouve-se o grande silêncio da diáspora a que os portugueses foram e continuam a ser condenados. dos maiores em literatura, estou a lembrar-me de camões e de sena. ambos se queixavam de que a sua obra não tinha a atenção que era justa. ontem, como hoje, a visibilidade era, largamente, uma prerrogativa de gente menor.

_____________________________________________
(1) - editores dos grupos leya e porto editora.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

a visibilidade é a própria virtude

nenhum actor literário se queixe de não ser notado. antes avalie se cumpre os mínimos para que o vejam. e mais, se esses mínimos estão suficientemente camuflados para passarem por bons:  o tempo que vivemos põe a visibilidade muito à frente da virtude. hoje à mulher de césar basta parecer séria. nunca, como agora,  o verso "morrer é  só não ser visto"  traduziu tão bem a situação actual da arte. valho-me aqui da liberalíssima liberdade de puxar o célebre heptassílabo (1) à minha sardinha. deveria cortar-lhe o advérbio para uma interpretação à letra, o certo é que há coisas que não se fazem. 

vem isto a propósito de pedro mexia e do seu regresso ao teatro do campo alegre, às quintas de leitura, oito anos depois de ter lá ido. dir-se-á que o país está pobre em aspirantes para se bisarem reservistas. não sei como vai desembaraçar-se com os poemas, em geral demasiado curtos para serem escutados, demasiado átonos para despertarem o ouvido, demasiado sem brilho para evitarem o peso das pálpebras. flâneur blasé, é provável que contenha os seus próprios bocejos na sessão. agora trata-se de gerir o empreendedorismo (2) em que se meteu. valha-lhe joão luís barreto guimarães, que vai apoiá-lo amanhã em palco, depois de se ter esfalfado, num longo périplo pela pátria, a vender a sua própria antologia. não sem que o blogue do evento a que acorre lhe tenha publicado hoje este texto. não deve ter percebido a subtileza comercial. menos por menos, assim foi baptizado o espectáculo, é o título da antologia pessoal de pedro mexia. merchandising algo cínico, além do mais. só se tem uma vida. pois.

_____________________________________________

 (1) - do poema a morte é a curva da estrada, de fernando pessoa, in poesias, edições ática, 14.º edição, 1993. a nota é para sublinhar o adjectivo célebre. Uma celebridade tão relativa que nem o é, tratando-se de quem se trata. mutatis mutandis...
  (2) - as minhas desculpas por tão detestável palavra, mas não sei de outra que encaixe melhor na circunstância.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

De caganças e vacanças

a indigência literária é inversamente proporcional ao barulho que os actores pensam fazer. o prato de lentilhas é que se ouça o chinfrim de vão de escada  e as reverências sejam salamaleques da plebe que discreta ou indiscretamente querem  ver a seus pés. entenda-se por plebe a gente que não pertence ao restritíssimo clã. uma espécie de seita mínima, o chefe e os seus secretários que tratam de ocupar os meios de propaganda, tornados invisíveis neste tempo. as circunstâncias não estão de feição para a glória de que são pósteros. entretanto, o eduardo pitta diz que é filho de deus  e foi de vacanças. filho de deus? problemática ascendência. sempre queria conferir a sua certidão de nascimento.  Não tanto para verificar a paternidade divina quanto para ver se estava escrito pita com dois tês.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

em minúsculas

escrevo sem maiúsculas. é uma revolta contra as normas e não um atropelo gratuito. isto não basta para um manifesto, mas para muitos parece ser suficiente.